Gamificação é à prova de cheaters?

Imagem de um hacker na penumbra

Óbvio que não. =)

Mas é uma das perguntas mais recorrentes que ouço quando estamos bolando uma estratégia de gamificação: como evitar que as pessoas burlem as regras do jogo?

Não sei se é cultural do brasileiro achar que o outro sempre vai tentar um atalho para seguir no game – o jeitinho brasileiro – mas dá pra evitar o comportamento dos cheaters com algumas estratégias.

Perfis de Jogadores

Existem alguns arquétipos que a psicologia já estudou e que servem como paralelo no mundo dos games. Assim conseguimos entender a motivação de cada pessoa enquanto jogador e buscar os gatilhos corretos e evitar os errados. O mais famoso estudo neste sentido é o do Richard Bartle, com seus 4 perfis de jogadores.

Mas existe um outro estudo interessante do Andrzej Marczewski que divide os comportamentos em 12 perfis, levando em consideração suas motivações. O artigo é bem extenso e faz parte do livro dele próprio, à venda somente em versão eletrônica na Amazon. Vou cometer a ousadia de simplificar o artigo aqui.

Existem 4 pilares na motivação intrínseca: o desejo de se Relacionar e conectar com as pessoas, a busca de Autonomia para ser e agir livremente, a vontade de Masterizar a competência ou conhecimento (domínio) e o sentimento de Propósito, de sentido no que realizamos – denominado RAMP. Ele representa cada um desses pilares como um perfil. E acrescenta mais duas variantes em cima destes pilares: o jogador (que busca motivações extrínsecas) e o disruptor (ou desafiador, numa tradução melhor).

Temos então 3 tipos de perfis interpretando cada um dos pilares motivacionais à sua maneira: pessoas buscando a motivação intrínseca puramente, jogadores buscando as motivações por eles mesmos, em troca de recompensas e os desafiadores motivados pela mudança, seja diretamente nas regras ou influenciando outras pessoas e elementos do jogo. Veja os 12 perfis no gráfico:

  1. Filantropo: altruístas, motivados pelo propósito, buscam melhorar a vida das pessoas
  2. Conquistador: procuram novos aprendizados, experiências e desafios para si mesmos.
  3. Espírito livre: motivados pela autonomia, procuram criar e explorar tudo.
  4. Sociável: buscam criar conexões com as pessoas.
  5. Aprendiz: agem como altruístas, mas motivados pelo reconhecimento.
  6. Consumidor: vão atrás de qualquer coisa pela recompensa, seja aprender uma habilidade ou entrar em um desafio.
  7. Explorador: buscam tudo o que o ambiente pode oferecer, procurando novos caminhos por uma recompensa.
  8. Networker: gostam de se relacionar com outras pessoas, procurando sempre aquelas que podem lhe ser úteis.
  9. Troll: querem influenciar negativamente todo mundo, seja porque não gostam do jogo ou somente pela diversão.
  10. Destruidor: buscam afetar o ambiente diretamente, seja com hacks ou buscando brechas no sistema.
  11. Influenciador: tentam mudar o sistema influenciando outras pessoas, positiva ou negativamente.
  12. Melhorador: procuram os buracos do sistema e tentam hackeá-los para melhorar o funcionamento dele.

Quem são os cheaters?

É uma divisão bem intuitiva e mais completa que a de Bartle, que descreve as minúcias dos comportamentos dos jogadores. Dá uma bela discussão, podemos falar mais sobre isso nos próximos posts. 😉

Mas olhando essa divisão toda, talvez o único perfil que precisamos nos preocupar quanto às trapaças e quebra de regras seja o Destruidor. Talvez o Troll atrapalhe um pouco a experiência dos outros jogadores, mas dificilmente se movimentarão como cheaters.

Obviamente não existem jogadores que se encaixam 100% em um ou outro perfil. Nosso comportamento é sempre dividido e depende muito do nosso momento também. Mas a faixa dos “trapaceiros” é muito pequena, menos de 10% quando estamos falando de uma população bem diversa.

E quando fechamos a gamificação em um ambiente corporativo (ou nobre, como é o voluntariado na V2V, projeto que estamos desenvolvendo), este perfil praticamente some. Na Opusphere nunca tivemos um único caso de funcionários de nossos clientes tentando burlar o sistema.

É só fazer tudo com calma, em um trabalho mínimo de estratégia, evitando colocar motivações extrínsecas desnecessárias e expondo os perfis indesejáveis. O ambiente vai ficar muito mais seguro porque os próprios jogadores farão questão de zelar por ele.

O potencial que a gamificação têm para engajar e até mudar hábitos, não pode ser subestimado. Nem por cheaters.